fevereiro 04, 2004

Diário de viagem de um Taliban por terras ocidentais - 1.ª parte

11 de Dhul-Hijjah de 1424 da Hégira, 05:48 am., início da reza Churuk (alvorada).

Chamo-me Hassan, e sou um Taliban.
Antes de querer ser taliban, queria ser poeta e cantar as virtudes das mulheres muçulmanas – essas cabras, bruxas do inferno que nos querem matar!
Mas agora mudei de vida - já não quero ser poeta - e prefiro ser: Taliban.
Agora, as pessoas já não me perguntam porque é que eu deixo crescer a barba: “que te fica tão mal... tu que tens tão pouca!”.
Nem me dizem: "Que foi que disseste, Hassanito? Não percebi nada?"
Agora, não têm que perceber o que eu digo. Apenas obedecer.

Para cá chegar - vindo do Irão - tive de viajar dentro de um contentor vermelho, com droga misturada entre bananas, era um barco com bandeira do Panamá – são tantos os barcos com bandeiras do Panamá! Deve ser um país muito grande e importante... hei-de ir lá um dia! – e atraquei no Porto de Leixões, por volta das 17:00.
Tive algum receio que me descobrissem mas, como deixavam de trabalhar por volta das 19:00 resolveram que não dava para descarregar nada do navio (parece que é um hábito por cá... preferem não fazer para não deixar a meio).

Pior foi à noite, quando os mesmos estivadores apareceram com o guarda do Porto e abriram o contentor. Parece que estavam à procura de roupa e coisas diferentes para levar para casa (devem ter o direito?), como viram a droga e as bananas, retiraram apenas alguns sacos e três ou quatro bananas e foram-se embora dizendo: “deixem estar em paz que este contentor é do Tony”. E lá se foram embora bebendo cervejas e comendo as bananas.

Agora, às 05:48, vejo que o sol começa a surgir por entre as frinchas e resolvo sair. Mas antes de começar o dia devo rezar, naturalmente.

Pelo sim, pelo não, levo algumas bananas e um saco pequeno – pode servir de almofada esta noite. Pelo menos agora vai servir para os joelhos.

7:12
Acabo de roubar um vagabundo que dormia debaixo do alpendre do Banco Espírito Santo. AFinal há ocidentais decentes, que dão guarida aos pobres nestes locais sagrados do Católico Espírito Santo.
Asfixiei-o com duas bananas (uma na boca outra, partida em dois, pelo nariz). Agora, acho que vou tentar arranjar boleia para chegar à Grande Sede.

10:29

É magnífico como passo despercebido com estas roupas sujas de vagabundo, parece que nem sequer existo! Até tentei perguntar a um infiel como se pode ir para o Cais do Sodré e ele respondeu-me: "Já comprei a outro de vocês. Não está à espera que compre duas Cais?"
Não percebi...
Agora tenho que encontrar o caminho para "As Obras do metro no Terreiro do Paço", nossa base secreta.
Vou tentar roubar um camelo!

13:51
Raios... ainda nem sequer passou um camelo por aqui...
Nem sequer consigo aproximar-me de um carro para roubar que vem logo um vagabundo expulsar-me com "Ó filho da Puta! Não tens outra merda de sítio para ir, cabrão de merda? Esta puta desta zona é minha, caralho! Fodo-te já a Puta das trombas, se ficas aqui, caralho! Tens um cigarro?"

18:02
Finalmente consegui chegar à estação de comboio...
Após ter sido quase atropelado por carros que vinham de todos os lados e a alta velocidade, passando vermelhos e traços contínuos, acelerando nas passadeiras e entrando sem reparar que existem peões.
Ainda dizem que os Talibans matavam indiscriminadamente...

(continua...)

Uxana Bino Lada

Publicado por Uxana Bino Lada em fevereiro 4, 2004 10:47 PM
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